Doenças neurológicas autoimunes

Por: desenvolvimento | 22 de outubro de 2025

As doenças neurológicas autoimunes, como a esclerose múltipla, são condições raras em que o sistema imunológico, por algum motivo desconhecido, ataca estruturas do próprio sistema nervoso central ou periférico, como neurônios, axônios, a capa dos nervos (mielina) ou proteínas específicas.

Uma dessas proteínas, chamada CASPR2 (Contactin-associated protein-like 2), é essencial para o funcionamento normal dos nervos porque ajuda a organizar os canais que regulam os sinais elétricos. Quando tudo está bem, esses sinais chegam aos músculos de forma ordenada, permitindo os movimentos normais do nosso corpo. Mas, quando o sistema imunológico produz anticorpos que atacam essa proteína, ocorre inflamação, danos aos neurônios e diversos sintomas neurológicos.

É como se alguém sabotasse os semáforos em uma cidade: O trânsito (os sinais elétricos) fica caótico. Nos nervos, isso traduz-se em hiperexcitabilidade, ou seja, sinais elétricos descontrolados que provocam movimentos musculares involuntários, espasmos e alterações na comunicação entre nervos e músculos.

Agora, João Moura e colegas de Portugal, Itália e Reino Unido fizeram uma grande revisão da literatura científica em busca de anticorpos que atacam a proteína CASPR2.

 

Doenças raras

A equipe começou buscando todos os estudos científicos sobre o assunto, em busca de informações sobre como estes anticorpos interferem com os canais de potássio nos axônios, estruturas fundamentais para manter o equilíbrio elétrico dos nervos. Estes canais funcionam como válvulas que controlam a entrada e saída de cargas elétricas, garantindo que os sinais nervosos são transmitidos de forma segura.

Quando os anticorpos atacam a CASPR2, estas válvulas se desorganizam, o que faz os nervos entrarem em um estado de hiperexcitabilidade, enviando sinais repetidos e fora de ritmo. A hiperexcitabilidade gera sinais elétricos descontrolados que provocam, por exemplo, atividade muscular contínua e involuntária.

 

A análise das pesquisas anteriores também consolidou informações importantes sobre as manifestações clínicas mais típicas, como a neuromiotonia (contrações musculares persistentes e involuntárias, que podem causar rigidez e fadiga) e mioquimias (movimentos ondulatórios visíveis sob a pele, como se os músculos tremessem em pequenas ondas).

 

O trabalho é significativo porque são doenças raras, difíceis de diagnosticar e que muitas vezes são confundidas com outras patologias neurológicas. A equipe aprofundou sobretudo o papel desse mecanismo de descontrole imunológico na neuromiotonia, também conhecida como síndrome de Isaacs, uma doença neuromuscular rara caracterizada por hiperexcitabilidade dos nervos periféricos, que provoca atividade muscular contínua e involuntária.

“Este trabalho é importante porque ajuda a consolidar o conhecimento atual e a identificar lacunas na investigação, abrindo caminho para diagnósticos mais rápidos e precisos e, no futuro, para tratamentos mais eficazes,” disse o professor João Moura.

 

Artigo: Neuromyotonia and CASPR2 Antibodies: Electrophysiological Clues to Disease Pathophysiology
Autores: João Moura, Pietro Antenucci, Ester Coutinho, Kailash P. Bhatia, Lorenzo Rocchi, Anna Latorre
Publicação: Biomolecules
DOI: 10.3390/biom15091262

Redação do Diário da Saúde